O caos que quase destruiu a DJI por dentro (crise e corrupção)

O caos que quase destruiu a DJI por dentro (crise e corrupção)

16/04/2026 0 Por redação

Frank Wang revela os bastidores da DJI: a mágoa que fez meio time sair, a gestão caótica que custou R$ 780 milhões e o recado direto sobre incentivos: “Sem dinheiro, é conversa fiada.”


No primeiro post dessa série, a gente falou sobre a humildade do Frank Wang e aquela frase famosa: 

“O mundo é burro… eu também”.

Hoje a gente entra no caos que quase destruiu a DJI por dentro. Vamos falar de dinheiro, mágoa, corrupção e bagunça. Porque sim, até a maior fabricante de drones do mundo já esteve à beira do colapso.


Dinheiro primeiro, propósito depois

Em um certo momento da entrevista, perguntaram ao Wang: “Qual é a melhor forma de incentivar um talento?” A resposta foi direta, quase dura. Wang disse:

“O dinheiro tem que estar envolvido. Falar em motivação sem dinheiro é conversa fiada. É enrolação. É tentar convencer alguém a trabalhar duro sem dar a base que ela merece.”

Ele não está dizendo que dinheiro é tudo. Mas está dizendo que sem uma base financeira sólida, qualquer ideia sobre propósito, cultura ou missão não sustenta. Primeiro você paga bem. Depois você cria um ambiente onde as pessoas possam trabalhar sem politicagem, sem chefe de outra área se envolvendo e sem gestor que vive em Nárnia. É simples, mas quase ninguém faz direito.

Wang faz. E é por isso que a DJI atrai (e mantém) alguns dos melhores engenheiros do mundo. Mas nem sempre foi assim.


A mágoa que fez meio time sair

Agora vou contar uma história que pouca gente conhece. É sobre o segundo ano da DJI, quando a empresa quase morreu.

Tudo começou quando Wang recebeu um convite para visitar uma fábrica de equipamentos de perfuração. O dono da fábrica dizia que queria montar um negócio de aviões. Wang, animado com a possibilidade, levou sua pequena equipe para conhecer as instalações.

Só que, depois dessa visita, algo estranho aconteceu. Wang conta:

“Quando voltamos da visita, várias pessoas da minha equipe pediram demissão.”

Uma dessas pessoas era um dos primeiros sócios da DJI. Ele tinha uma participação pequena na empresa. O motivo da briga? Uma decisão de Wang sobre a divisão de ações.

Wang explica como ele havia distribuído as participações:

“Um dos fundadores era muito bom tecnicamente. Para ele, dei 2% da empresa. Outro funcionário era menos habilidoso. Para ele, dei 0,5%.”

Foi aí que a confusão começou. O sócio que tinha recebido 0,5% foi conversar com Wang e fez uma proposta inusitada:

“Ele me disse: ‘Pega a minha parte de 0,5% e dá para o outro. Quero que a gente seja igual’.”

Wang recusou. Ele respondeu:

“Eu disse que não. Falei: ‘Não posso fazer isso. O melhor tem que ganhar mais’.”

O sócio ficou profundamente magoado. Wang lembra:

“Ele disse que eu havia machucado os sentimentos dele. E pediu demissão.”

Por que essa mágoa é tão interessante?

Porque não era sobre dinheiro. Pensa comigo: o sujeito estava disposto a abrir mão da própria participação para que os dois (ele e o colega) fossem tratados como iguais. Ele não queria mais ações. Ele queria simetria, talvez, um reconhecimento por estar lá desde quando “tudo ainda era mato”. Queria ser visto como parceiro, não como um subordinado técnico.

Wang, por outro lado, estava pensando como engenheiro: mérito, produtividade, justiça técnica. Na cabeça dele, era óbvio que quem produz mais deve ganhar mais. Os dois estavam certos dentro das suas lógicas, mas não conversavam a mesma língua. E essa desconexão custou caro: vários outros funcionários saíram junto.

Anos depois, Wang descobriu a verdadeira razão por trás de toda aquela saída em massa. Ele revela:

“Só muitos anos depois, eu descobri que meu pessoal foi “roubado” de mim: O dono daquela fábrica os contratou e minha melhor equipe foi levada inteira.”

O encontro que Wang achava que era uma oportunidade de negócio era, na verdade, uma armadilha. O dono da fábrica usou a visita como disfarce para selecionar e contratar os melhores talentos da DJI pelas costas. Wang ficou sozinho com um contador. A empresa quase fechou as portas no segundo ano de vida.

Anos depois de sobreviver àquela quase-falência, a DJI já era gigante. Mas um novo problema surgiu – e dessa vez, o prejuízo foi financeiro e gigantesco…


Quando a bagunça interna custou R$ 780 milhões

Se você acha que a DJI sempre foi essa máquina que funciona como um relógio suísso, se engana.

Entre 2017 e 2018, a empresa viveu o que Wang chama de “colapso dos rituais” – uma forma poética de dizer que tudo virou bagunça. Wang descreve o cenário:

“A empresa estava cheia de feudos. Cada chefe era rei no seu território. As pessoas pararam de seguir os processos. Cada um fazia o que queria.”

O ponto mais grave foi na área de compras e suprimentos. A corrupção estava tão disseminada que, quando a auditoria interna foi feita em 2019, o prejuízo foi assustador. Wang revela:

“A corrupção na cadeia de suprimentos nos custou mais de 1 bilhão de yuans.”

Isso equivale a cerca de R$ 780 milhões.

O número de funcionários envolvidos foi grande: 45 pessoas foram demitidas. Dessas, 26 eram da engenharia e compras (o coração da cadeia de suprimentos). As outras 19 vinham de vendas, administração, design e fábrica. E o mais grave: 16 foram entregues à Justiça chinesa. Foram presos.

Wang admite que parte da culpa foi dele. Ele diz:

“Antes eu não entendia nada de gestão de pessoas. Sem perceber, a empresa ficou cheia de corrupção. Eu não conseguia controlar mais nada. No final, foi um colapso dos rituais.”

E completa, reconhecendo que também lidou mal com a crise:

“Por causa da minha imaturidade, usei uma forma muito confrontadora para resolver o problema. Isso gerou muito rancor por dentro. O barulho que veio pra fora foi consequência disso.”

Traduzindo: além da crise, Wang ainda lidou com ela do jeito errado no começo. Mas aprendeu. E a DJI que conhecemos hoje – estável, confiável, gigante – é fruto desse aprendizado doloroso.


O que a gente tira disso tudo?

Três lições simples, que servem pra quem empreende, pra quem gerencia equipe ou até pra quem só quer entender como uma empresa gigante pensa:

1. Pagar bem é o mínimo. Antes de qualquer conversa motivacional, resolva o bolso. Como Wang disse: “Sem dinheiro, é conversa fiada.”

2. Meritocracia sem empatia quebra relações. O sócio do Wang não queria mais dinheiro. Queria ser tratado como igual. Às vezes, a lógica técnica precisa dar espaço para a lógica humana.

3. Crescer rápido sem controle é receita para desastre. A DJI perdeu R$ 780 milhões porque a corrupção entrou pelas brechas da falta de processo. Governança não é coisa de empresa chata – é proteção.


E aí, o que você achou?

Você já passou por alguma situação parecida? Já viu uma empresa crescer rápido demais e perder o controle? Já se sentiu desvalorizado mesmo ganhando bem? Conta pra gente nos comentários aqui no Drone Friendly.


O que vem por aí

Esse foi o segundo post da nossa série. Ainda vamos publicar:

  • #3 – Por que a DJI NÃO fez carros (estratégia e foco)
  • #4 – A DJI é uma “Escola de Executivos” (por que tanta gente sai da empresa e vira empreendedora)
  • #5 – A história emocionante do nome DJI (e o passeio com a mãe do Frank)

Fiquem ligados! 🔔


Créditos: Conteúdo baseado na entrevista exclusiva de Frank Wang ao LatePost e no artigo do Hangpai.org (9 de abril de 2026). O Drone Friendly agradece e recomenda a leitura da íntegra para quem quiser se aprofundar.
Foto: David Hartung, da edição online da Forbes

Nota do Editor: Se você gostou ou está gostando desses artigos, compartilhe. 🙂