Por que a DJI NÃO fez carros (estratégia e foco)
25/04/2026Frank Wang explica por que desistiu de entrar no mercado automotivo, compara sua decisão com a da Xiaomi e revela o verdadeiro plano da DJI para os carros.
Este é o terceiro post da nossa série sobre a entrevista de Frank Wang ao LatePost. Já falamos sobre humildade (post #1) e sobre o caos interno que quase destruiu a DJI (post #2).
Hoje o papo é sobre um assunto que todo mundo no mundo da tecnologia já se perguntou: por que a DJI, sendo a gigante que é, nunca fez um carro?
Frank Wang respondeu. E a resposta é direta, honesta e cheia de lições.
“Se fosse em 2016, teríamos morrido feio”
A primeira coisa que Wang deixa claro é que a ideia passou pela cabeça dele, sim.
Ele conta:
“Eu pensei em fazer carros. Cheguei a considerar seriamente. Mas aí olhei para dentro da empresa e vi que a gente não tinha capacidade para isso.”
E aí vem a frase que já está rodando o mundo:
“Se a gente tivesse entrado nessa em 2016, teríamos morrido feio. Morrido mesmo.”
Por que 2016? Porque foi naquela época que o mercado de carros elétricos começou a explodir na China. Várias empresas de tecnologia viram a oportunidade e pularam de cabeça – algumas com sucesso, outras nem tanto.
Wang olhou para o cenário e tomou uma decisão que, hoje, parece óbvia: não pular.
A comparação com a Xiaomi (e o “problema” de não ter um “segundo” para tocar a DJI)
Durante a entrevista, Wang fez uma comparação interessante – e muito honesta – com a Xiaomi, que entrou no mercado de carros de forma agressiva.
Ele disse:
“O Lei Jun (fundador da Xiaomi) colocou tudo no carro. Ele é all-in mesmo. Ele deixou o negócio de celular nas mãos de outro executivo e foi com tudo para os carros.”
E aí vem a sinceridade de Wang:
“Eu não tinha alguém para tocar a DJI enquanto eu fosse fazer carro. Não tinha ninguém com capacidade para ocupar o meu lugar.”
Traduzindo: para Wang, entrar no mercado de carros significaria abandonar a DJI – ou pelo menos deixar a empresa em mãos menos preparadas. E ele não estava disposto a correr esse risco.
O que os números dizem (e por que Wang estava certo)
A decisão de Wang fez ainda mais sentido quando a gente olha para os números do setor automotivo.
Segundo dados citados na imprensa chinesa, a indústria de carros operou com uma margem de lucro de apenas 4,1% em 2025 – e caiu para 2,9% no início de 2026 .
Para comparação: a margem da DJI é muito maior do que isso. As empresas de tecnologia que entraram no mercado de carros descobriram da pior forma que fazer carro é um negócio de margem baixa e custo altíssimo.
Wang sabia disso. Ele preferiu continuar dominando um mercado de altas margens (drones e imagem) do que entrar em um mercado violentamente competitivo e com lucros apertados.
“Não adianta ter oportunidade se você não tem capacidade de executar.”
Mas a DJI está SIM nos carros – só que de um jeito inteligente
Aqui está a parte que muita gente não sabe: a DJI não fabrica carros, mas está profundamente envolvida com eles.
Wang criou uma estratégia parecida com a da Huawei: em vez de fazer o carro inteiro, fornece a inteligência para ele.
As principais frentes da DJI no mundo automotivo hoje são:
1. Sistemas de direção assistida (ADAS)
A DJI, por meio de uma subsidiária chamada Zhuoyu Technology, já fechou parceria com nove montadoras, incluindo Volkswagen, Great Wall e FAW (uma das maiores da China). Hoje já existem mais de 20 modelos de carro no mercado usando tecnologia da DJI .
2. Parceria com a比亚迪 (BYD)
Essa é a mais interessante para quem curte a junção de drone + carro. A DJI fechou um acordo com a BYD (maior fabricante de carros elétricos da China) para desenvolver o sistema “Lingyuan” – basicamente, uma base para drones no teto do carro .
O sistema permite que o drone:
- Decole e pouse automaticamente no carro em movimento
- Siga o carro e grave imagens aéreas dinâmicas
- Troque baterias sozinho, sem intervenção do piloto
É o tipo de funcionalidade que parece coisa de filme de ficção científica, mas já está rodando por aí.
3. Parceria com a General Motors (Wuling)
A DJI também trabalhou com a GM no modelo Baojun KiWi EV, um carro elétrico compacto que usa o sistema de condução assistida da DJI. O objetivo é levar tecnologia de direção semiautônoma para carros populares, de baixo custo .
A grande sacada de Wang: fazer como a Huawei, mas sem os problemas
Se você acompanha o mercado de tecnologia, percebeu que a estratégia da DJI é muito parecida com a da Huawei.
A Huawei também diz que “não fabrica carros”, mas fornece o sistema operacional, os sensores e a inteligência para diversas montadoras. É um modelo chamado de “Tier 1 supplier” – o fornecedor de tecnologia por trás da marca.
A diferença, segundo analistas, é que a Huawei entrou de forma mais agressiva, mexendo até no design e na venda dos carros. A DJI tem sido mais focada – fornece componentes e sistemas, mas deixa a montadora fazer o resto .
Wang parece preferir assim. Ele não quer o risco de fabricar um carro e ter que lidar com recall, concessionárias, pós-venda. Ele quer vender a inteligência – que é o que ele sabe fazer de melhor.
O que isso significa para nós, pilotos de drone
Essa história toda tem três lições importantes para quem empreende ou trabalha com tecnologia:
1. Saber dizer “não” é mais importante do que saber dizer “sim”
Wang poderia ter entrado na moda dos carros elétricos. Muitos empreendedores teriam feito isso por puro ego. Ele teve a humildade de reconhecer que a DJI não estava preparada. Resultado: a empresa continua saudável e dominando seu mercado.
2. Não fazer o produto inteiro não significa ficar de fora
A DJI não fabrica carros, mas está dentro de milhões deles – fornecendo sensores, software e sistemas de drone. Wang entendeu que não precisa ser dono de tudo para ganhar dinheiro com tudo.
3. Foco é uma escolha ativa
Wang resumiu isso em uma frase:
“A capacidade é a nossa fronteira de gestão. Se a gente não tem capacidade para fazer algo, a gente não faz, mesmo que a oportunidade exista.”
É uma frase simples, mas que poucos empreendedores têm coragem de seguir.
E aí, o que você achou?
Você concorda com a decisão da DJI de não fabricar carros? Você compraria um carro com tecnologia da DJI?
Conta pra gente nos comentários aqui no Drone Friendly.
O que vem por aí
Esse foi o terceiro post da nossa série. Ainda vamos publicar:
- #4 – A DJI é uma “Escola de Executivos” (por que tanta gente sai da empresa e vira empreendedora)
- #5 – A história emocionante do nome DJI (e o passeio com a mãe do Frank)
Fica ligado! 🔔
Créditos: Conteúdo baseado na entrevista exclusiva de 19 horas concedida por Frank Wang (Wang Tao) ao LatePost (China), publicada em abril de 2026. O Drone Friendly agradece e recomenda a leitura da íntegra (em chinês) para quem quiser se aprofundar. E adianto, vai ser difícil: O que circulou na imprensa até agora são resumos e interpretações de veículos de tecnologia. O texto original completo (cerca de 20 mil caracteres chineses) não está disponível nos resultados de busca. Ele pode estar atrás de paywall no site da LatePost (WeChat ou aplicativo próprio).
Foto: Site Mashdigi “DJI Automotive will use drone technology to create “eyes” for vehicles to understand road conditions ahead”


