A DJI é uma “Escola de Executivos” – por que tantos talentos saem da empresa para empreender
01/05/2026Frank Wang fala sobre a rotatividade de funcionários, como ele aprendeu a lidar com as saídas e por que isso não é necessariamente um problema.
Este é o quarto post da nossa série sobre a entrevista de Frank Wang ao LatePost. Já falamos sobre:
- #1 – A humildade dele (“O mundo é burro… eu também”)
- #2 – O caos interno que quase destruiu a DJI (corrupção e mágoa)
- #3 – Por que a DJI NÃO fez carros (estratégia e foco)
Hoje o papo é sobre um fenômeno que pouca gente fora do circuito de tecnologia conhece: a DJI é considerada na China uma verdadeira “Escola de Executivos” do setor de hardware.
Isso significa que muitos dos principais empreendedores da indústria de tecnologia chinesa – especialmente na área de drones, robótica e dispositivos inteligentes – vieram da DJI.
E, sim, Frank Wang falou sobre isso. E a resposta dele vai te surpreender.
O que significa “Escola de Executivos”? (ou “Whampoa do Hardware”)
Nos círculos de negócios da China, existe uma expressão curiosa: chamar uma empresa de “黄埔军校” (Huangpu Junxiao) – a famosa Academia Militar de Whampoa, que formou gerações de líderes militares no país.
Quando aplicada ao mundo corporativo, a expressão significa que aquela empresa forma talentos que vão liderar outras empresas ou criar seus próprios negócios de sucesso.
No setor de tecnologia, algumas empresas ganharam esse apelido:
| Empresa | Apelido | Por quê? |
|---|---|---|
| DJI | “Whampoa do Hardware” | Formou fundadores de empresas como Bambu Lab, EcoFlow, XAG… |
| Microsoft | “Whampoa do Software” | Ex-funcionários fundaram startups como o próprio GitHub |
| 华为 (Huawei) | “Whampoa das Telecom” | Espalhou engenheiros para todo o setor de redes |
A DJI, especificamente, é conhecida por ter exportado talentos para empresas como:
- Bambu Lab (impressoras 3D de altíssima qualidade)
- EcoFlow (baterias portáteis e geradores solares)
- XAG (drones agrícolas, concorrente direto da DJI nesse segmento)
- E dezenas de outras startups menores
Wang foi perguntado sobre isso. E a resposta dele mostra uma evolução de pensamento que vale a pena entender.
Antes: Wang via as saídas como uma “traição”
Frank Wang não esconde que, no começo, ele detestava ver seus melhores talentos saindo da empresa.
Ele conta:
“Antes, quando alguém pedia demissão para abrir a própria empresa, eu levava como algo pessoal. Achava que era uma traição. Pensava: ‘Eu investi tanto nessa pessoa, dei oportunidades, ensinei… e agora ela vai concorrer comigo?'”
E de fato, muitas dessas empresas que surgiram de ex-funcionários da DJI viraram concorrentes diretos em alguns segmentos. O caso mais emblemático é o da XAG (antiga Xaircraft), que disputa com a DJI o mercado de drones agrícolas no Brasil e no mundo.
Wang admite que, no início, ele via isso como um erro estratégico dele:
“Eu achava que, se as pessoas estavam saindo, era porque eu não estava fazendo algo certo. Que eu não estava sendo um bom líder.”
Agora: “Metabolismo organizacional”
Com o tempo, Wang mudou completamente de opinião. Ele desenvolveu o que chama de “metabolismo organizacional” – uma metáfora biológica para explicar que empresas saudáveis precisam ter renovação de talentos.
Ele explica:
“Assim como o corpo humano renova suas células o tempo todo – células velhas morrem, células novas nascem –, a organização também precisa desse ciclo. Gente que fica para sempre nem sempre é bom. Gente que sai nem sempre é perda.”
Wang passou a aceitar a rotatividade como algo natural e até saudável. Ele diz:
“As pessoas vão fluir. É da natureza. Meu papel não é prender ninguém. Meu papel é fazer com que, enquanto elas estão aqui, elas se tornem a melhor versão delas mesmas.”
E aí vem a parte mais interessante:
“Se elas forem embora, que saiam maiores do que chegaram. Se vão empreender, que empreendam em coisas que dialoguem com a DJI. Isso vira um ecossistema.”
O caso da Bambu Lab (impressoras 3D)
Um dos exemplos mais impressionantes desse fenômeno é a Bambu Lab, empresa que revolucionou o mercado de impressoras 3D nos últimos anos.
Os fundadores da Bambu Lab são ex-engenheiros da DJI. Eles pegaram o conhecimento em motores, controle de movimento e software que aprenderam na DJI e aplicaram em um setor completamente diferente – o de impressão 3D.
O resultado? A Bambu Lab lançou impressoras que imprimem 4 a 5 vezes mais rápido do que as concorrentes, com qualidade superior e interface amigável. Eles basicamente fizeram com as impressoras 3D o que a DJI fez com os drones.
Wang comenta sobre isso sem ressentimento:
“Olha o que eles fizeram. É impressionante. Eles levaram o que aprenderam aqui e criaram algo novo, em outro setor. Isso é até um orgulho, de certa forma.”
Ele revela que mantém contato com alguns desses ex-funcionários:
“Vira e mexe a gente conversa. Não sou amigo próximo, mas há respeito. Eles sabem que aqui foi a escola deles.”
Por que essa “Escola de Executivos” é boa para todo mundo
Wang enxerga essa dinâmica como algo positivo para o ecossistema de tecnologia como um todo. Ele explica:
1. A DJI atrai talentos ambiciosos
Pessoas que querem crescer, aprender e, eventualmente, empreender procuram a DJI de propósito, porque sabem que lá vão ter acesso ao que há de mais avançado em engenharia de hardware.
2. A DJI se beneficia do ecossistema
Empresas fundadas por ex-DJI viram, com o tempo, parceiras, fornecedoras ou clientes da própria DJI. Um exemplo é a EcoFlow, que fornece baterias de alta performance usadas em alguns equipamentos da DJI.
3. O setor inteiro se desenvolve
Quanto mais empresas de tecnologia de ponta surgem na China – e no mundo –, mais o mercado cresce. E a DJI continua sendo a referência para todas elas.
Wang resume sua filosofia atual:
“O importante não é prender as pessoas para sempre. É fazer com que, enquanto elas estão aqui, elas se desenvolvam ao máximo. O resto é consequência.”
A confissão final: “Eu era um péssimo gestor no começo”
Wang não romantiza o passado. Ele admite que, nos primeiros anos da DJI, ele foi um péssimo gestor de pessoas – e que isso contribuiu para muitas saídas.
Ele diz:
“Eu só me importava com produto. Gente me irritava. Eu achava que todo mundo ao meu redor era incompetente. Era arrogante, sim. Não vou negar.”
E completa:
“Com o tempo, fui percebendo que minha arrogância estava afastando justamente as pessoas que eu mais precisava. Fui aprendendo a ouvir. Fui aprendendo a delegar. Não foi fácil. Não é fácil ainda.”
Essa honestidade é rara. Quantos CEOs bilionários você conhece que admitem abertamente que eram “péssimos” no começo?
O que isso significa para nós, pilotos de drone
Essa história toda tem três lições que valem para qualquer pessoa – não só para empreendedores:
1. Trocar de emprego não é traição
Se você está em um lugar onde não cresce mais, procurar novos ares não é deslealdade. É vida. Wang aprendeu isso.
2. Empresas saudáveis formam pessoas, não só produtos
A DJI pode até perder talentos, mas esses talentos saem melhores do que chegaram. Isso é sinal de uma empresa que realmente investe em gente.
3. Arrogância afasta talento
Wang admite que tratou mal pessoas no começo. E aprendeu. Se você lidera qualquer equipe – mesmo que seja um pequeno negócio de drone –, vale a pena refletir: você está sendo acessível? Você está formando ou apenas usando?
O caso do Brasil: a DJI também forma talentos aqui?
Agora uma pergunta para os leitores do Drone Friendly: será que esse fenômeno também acontece no Brasil?
Pilotos que trabalham com DJI no país – seja em mapeamento, fiscalização, filmagem ou inspeção – muitas vezes começam usando equipamentos DJI e depois migram para outras marcas ou até abrem seus próprios negócios de prestação de serviços.
Será que, num nível menor, a DJI também está formando uma “escola de executivos” por aqui? Conta pra nós nos comentários!
E aí, o que você achou?
Você conhecia o apelido de “Escola de Executivos” para a DJI? Já trabalhou em alguma empresa que formou talentos que saíram para empreender? O que você acha da filosofia de Wang sobre rotatividade?
Deixe sua opinião aqui nos comentários do Drone Friendly.
O que vem por aí
Esse foi o quarto post da nossa série. Ainda vamos publicar o último:
- #5 – A história emocionante do nome DJI (e o passeio com a mãe do Frank)
Fica ligado! 🔔
Créditos: Conteúdo baseado na entrevista exclusiva de Frank Wang ao LatePost (abril de 2026) e em reportagens do 36Kr, LatePost e Technode. O Drone Friendly agradece e recomenda a leitura da íntegra para quem quiser se aprofundar.
Ilustração gerada por IA. tendo em primeiro plano uma árvore com uma placa escrito “DJI”, onde na parte de cima entre galhos e folhas estão alguns frutos e, em destaque, três frutos com logotipos das empresas Bambu Lab, Ecoflow e XAG, fundada por ex-engenheiros da DJI, dando a entender que a árvore DJI gerou novos frutos na área de tecnologia.


